Luzia Winandy  

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O Brincar e suas vicissitudes (entrevista)

Por: Luzia Winandy
Entrevista para a Revista San Michael mês 02/2011

Qual a importância da criança “ser criança”, sem maiores responsabilidades?
O que se percebe hoje, principalmente com as novas configurações familiares, com as transformações do ambiente urbano e com a evolução tecnológica, é que as crianças estão perdendo o seu lugar infantil, dando espaço para “pseudo-adulto”. Está havendo uma “inundação” de compromissos e responsabilidades para as crianças, ainda num momento em que o que elas precisam mesmo é de ter tempo livre para desenvolver o brincar. Porque é no brincar que vai permitir o crescimento saudável da criança, possibilitando a construção de seu amadurecimento, com a conseqüente formação de uma pessoa responsável. Um excesso de responsabilidade antes do tempo, pode conduzir a um adulto inseguro, medroso e agressivo.

Que tipos de brincadeiras são mais saudáveis na vida das crianças?
O brincar é fundamental no desenvolvimento da criança, tanto a nível físico, intelectual, social quanto emocional. Vamos pensar que o brincar da criança está impregnado de liberação de tensões do seu dia a dia. É no brincar que uma criança vai “solucionando” seus conflitos internos, conscientes e inconscientes. O importante é não impor nenhuma brincadeira, ela escolhe do que ela quer brincar: se é de casinha, de carrinho, de faz de conta, de esconde-esconde, ouvir historinhas, etc., ou seja, vai depender do momento que a criança estiver ela vai ter uma escolha do que ela quer brincar. No consultório, por exemplo, atendi uma criança que por muitas sessões sua brincadeira preferida era de esconde-esconde. Com isto, ela estava resolvendo seu conflito interno de suportar separações, no caso, a mamãe que ia trabalhar e seu medo de não tê-la de volta. No dia a dia da criança, é isto que ela faz: ao brincar, ela libera tensões do seu dia a dia usando personagens fictícios, a fim de alcançar um amadurecimento. Assim considerando, toda a brincadeira infantil tem seu valor.
A própria criança cria a brincadeira; ela é capaz de transformar objetos para representar coisas diferentes do que realmente são, por exemplo, elas podem usar pedrinhas ou objetos pequenos que podem simbolizar comidinhas numa brincadeira de casinha; bichinhos de plástico que simbolizam pessoas, ou seja, elas são capazes de fazer esta transformação e com isto desenvolver sua criatividade, o pensamento, e procurar soluções para situações problemas pelas quais vem sentindo. No entanto, o que a criança precisa é dispor de espaço de tempo livre para poder ser a autora de suas brincadeiras e não vivê-las passivamente através de desenhos animados de TV, ou mesmo de internet. É a possibilidade de atuar ativamente e não passivamente que faz a diferença.
Eis aí o grande problema advindo da TV e da internet: você não constrói o seu espaço criativo do brincar, você vive como observador. Enquanto no brincar você que faz a história acontecer.
Isto não implica que precisamos deixar as crianças alienadas da tecnologia. Ela também tem seu valor. No entanto deveremos restringir seu uso.

Qual a importância de que os pequenos saiam um pouco do mundo digital e brinquem ao ar livre?
Estar em contato com a natureza é fundamental para a criatividade, na apreensão da realidade e nas investigações de suas curiosidades. Os estudos mostram que estar em contato com o mundo externo amplia nossa visão de mundo, ajuda os pequenos e também os adultos, a construir uma experiência de se relacionar com o mundo de modo ativo e dinâmico. Aguça a liberdade de experimentar e inovar. Promove novas sensações.

Porque é necessário que as crianças se relacionem entre si, brinquem em grupos? Quais aspectos podem melhorar em suas vidas, se tiverem sempre esse habito?
Estudos mostram que é no brincar que se estabelecem os primeiros vínculos sociais, pois é brincando e jogando que a criança vai aceitando a entrada de outras crianças em suas brincadeiras e assimilando que o mundo não pertence somente a ela e a seus desejos. Que o outro também tem direitos, como os dela. Ou seja, é na brincadeira de grupo que a criança se abdica de seu egoísmo e permite dividir com o colega; se ajusta ao outro. Ela se socializa a partir das brincadeiras. Descobre que pode ganhar, mas também pode perder. Descobre que suas atitudes têm conseqüências; descobre que é gostoso ter com quem compartilhar suas fantasias nas brincadeiras e desenvolver uma amizade; desenvolve a autonomia, experimentando vivências de tomadas de decisões e busca de soluções de problemas.

Arte, cultura, livros… Hoje existe tudo isso para o público infantil, como os pais devem fazer com que seus filhos tenham acesso a essas atividades?
Crianças adoram histórias de contos de fadas. Elas não se cansam de escutar repetidas vezes as mesmas histórias. Porque as histórias dão um sentido para ela, um significado importante em suas construções imaginárias. Assim sendo, desde muito cedo é importante contar histórias para a criança. São os pais que precisam apresentar este mundo para ela, o mundo encantado da leitura e da arte. No entanto, é vivendo isto com a criança que ela vai tomar este gosto e desenvolver este interesse.

Luzia Winandy

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Tags: adulto inseguro, brincar, brincar em grupo, fantasia


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This entry was posted on Wednesday, February 23rd, 2011 at 17:55 and is filed under O Brincar e suas vicissitudes(Entrevista). You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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