Hiperidrose: Uma Compreensão Psicológica (Entrevista)

Por: Luzia Winandy Participação na Entrevista para a Rede de Tv MEGATV no dia 29/02/2012

Toda a problemática da hiperidrose gira em torno do excesso de sudorese que a doença provoca. É uma desordem fisiológica caracterizada por suor excessivo. Em alguns o suor intenso pode ser nas mãos, nos pés, nas axilas, inguinal ou crânio-facial, algumas vezes acompanhado de rubor facial. Esta sudorese excessiva é muito constrangedora e acaba por dificultar atividades diárias, seja no âmbito profissional como no social. Atividades corriqueiras como escrever, segurar papéis, apertar mãos de outra pessoa, dar um abraço, podem ser dificultadas pela hiperidrose, principalmente se o quadro é grave e ocorrer gotejamento na região afetada. Este sintoma acaba tomando uma dimensão muito grande na vida do portador dela, com muitos complexos e muita vergonha de se expor com as marcas deixadas pela transpiração excessiva em seu corpo. É uma sudorese constante, que tem como fatores agravantes, a ansiedade diante de situações de tensão ou pressão emocional. Podemos dizer que aspecto psicológico nuclear da hiperidrose é a ansiedade que desencadeia em relação à transpiração excessiva e quanto mais ansiosa fica, maior a vigilância em relação ao corpo, mais aumenta a sudorese.

Estudos mostram que embora não se conheça exatamente as causas pelas quais isto ocorre e não seja considerada e nem classificada como um transtorno de ansiedade, todo o quadro caracteriza uma situação semelhante à de uma ansiedade fóbica. Inclusive por ser a sudorese excessiva um dos sintomas de ansiedade e pela reação que a pessoa apresenta de se esquivar de contato interpessoal e de situações em que se sente sob forte pressão. Ela passa a temer e fugir das situações da mesma forma que um fóbico também se esquiva.

Conseqüência emocional e social: Como o distúrbio afeta o dia a dia e a qualidade de vida do paciente A hiperidrose afeta muito emocionalmente a pessoa. Ela se sente envergonhada porque fica sempre preocupada com as marcas da sudorese. Evita o aperto de mão, um abraço, e acaba formando um distanciamento físico do outro, passando uma imagem de distanciamento físico afetivo. Ou ainda, diante de situações onde ela fica muito em evidencia, seja em falar com um grupo, ou mesmo dar uma opinião, fica constrangida, acreditando que todos estão percebendo as marcas que a sudorese lhe deixa, sejam no rosto, no corpo e com isto normalmente aumenta a ansiedade pela sua preocupação com sua aparência. Ela perde o controle da situação e fica se sentindo muito constrangida e embaraçada. Por ficar tão presa neste estigma passa a não confiar em seus próprios recursos internos, sentindo-se empobrecida diante do mundo, muitas vezes com uma percepção de si bastante inadequada. Com isso, deixa de perceber suas qualidades e também suas outras fragilidades. Tornando-se muitas vezes insegura e com medo de ousar. Todo seu foco de experiência de vida acaba se voltando para este aspecto.

O inicio dos sintomas pode ocorrer na infância, na adolescência ou somente na idade adulta. Suas conseqüências emocionais se manifestam em geral, na adolescência e na vida adulta, momento que se desenvolve mais o senso critico, de medo e vergonha da avaliação dos outros em relação aos seus sintomas. São estas conseqüências negativas que acabam por conduzir a uma ansiedade em situações de tensão ou pressão emocional, aumentando ainda mais a sudorese. Para os casos mais graves, seus relacionamentos acabam se tornando bastante restritos, principalmente por ter uma preocupação muito voltada para seu problema e negligenciar o relacionamento com os outros. Gasta muito de sua energia preocupada com sua aparência. Isto a afasta de uma convivência saudável. Nesse ponto, pode acabar por levar a uma desestruturação afetiva- emocional e social de sua vida.

Ela acredita que se ficar em seu cantinho, sem se expor muito, a sudorese fica sob controle e ninguém perceberá. De fato, na rotina do dia a dia, ela até consegue esconder e manter seu “segredo”, seja com camisetas apropriadas, meias ou mesmo com alguns disfarces. Mas diante de uma situação de conflito mais intensa, que a submeta mesmo a pequenas pressões ou tensões emocionais, existe uma tendência do quadro se agravar aumentando a sudorese. Lembrando que quando se submete a situações que desencadeiam ansiedade ou estresse o sintoma se manifesta mais intensamente e de modo descontrolado. E é disto que ela se esquiva, fica numa tentativa constante de evitar tais situações. Mas sabemos que isto é impossível na vida. Não conseguimos, por mais que nos esforcemos, manter uma vida linear. Pelo contrário, passamos o tempo todo por altos e baixos, deparando com conflitos diários. É desta situação que na maioria das vezes o portador quer evitar: não quer ser visto num grupo, não quer dar sua opinião, se é chamado pela chefia, já se sente ameaçado. Mas sempre com medo de ser visto em sua “deficiência”.

Podemos muitas vezes pensar que esta deficiência é encobridora de algo que a pessoa acaba deixando latente. Ela deposita toda sua fragilidade e medo nos sintomas dela, com isto, impedindo de ver quais são seus reais medos e fragilidades. Uma psicoterapia vai ajudar a abrir este campo para ela. E ela vai se deparar com uma baixa auto-estima, que por viver tão refém de seus medos da aparência de um corpo suado, tem dificuldades de olhar para si como um todo, em suas qualidades e defeitos.

O tratamento é importante, na medida em que pode ajudar o paciente a lidar com a ansiedade e reduzir assim seus medos de se mostrar tal como ela é. Vai ajudá-la a entrar em contato com suas qualidades e também fragilidades, limitações, falhas, medos, fraquezas, defeitos. A olhar para seus principais sentimentos negativos e idéias errôneas que muitas vezes formulou ao longo da vida, desmitificar as interpretações erradas de seus pensamentos acerca de si mesmas. Trabalhar a auto-estima (como a pessoa percebe e valoriza a si mesma). O trabalho todo evolui no sentido de ajudá-lo a entender seu problema e aliviar sua preocupação exacerbada com sua aparência e medo da avaliação negativa pelos outros de sua aparência física. O tratamento trabalha com técnicas que levam a pessoa aprender a gerenciar suas crises de pensamentos negativistas da doença, a modificar a relação com as sensações do corpo. O objetivo de uma intervenção em psicoterapia é ajudá-la a desenvolver maior confiança em si própria.

Luzia Winandy

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